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Hamas

O Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) é uma organização político-militar palestina de orientação sunita islâmica que governa a Faixa de Gaza desde 2007. Fundado em 1987, o Hamas se opõe à existência de Israel e defende a luta armada, tornando-se um dos principais atores no conflito israelense-palestino e protagonista de repetidas guerras, incluindo o conflito devastador iniciado em outubro de 2023. Este artigo traça sua origem, evolução e os conflitos recentes.

Vista urbana da Faixa de Gaza, território governado pelo Hamas

Origem e Fundação (Década de 1980)

O Hamas tem suas raízes na Irmandade Muçulmana, uma organização islâmica sunita que atuava na Palestina desde os anos 1950, focada inicialmente em trabalho social, religioso e educativo.

O Contexto da Primeira Intifada

O catalisador para a formação do Hamas foi o início da Primeira Intifada em 1987, uma revolta popular palestina em larga escala contra a ocupação israelense. Vendo a insatisfação generalizada, membros da Irmandade Muçulmana na Faixa de Gaza, liderados pelo xeique Ahmed Yassin, decidiram criar uma ala mais ativa e militante para participar da resistência e ganhar relevância política.

Assim, em 10 de dezembro de 1987, o Hamas foi fundado oficialmente como o "Movimento de Resistência Islâmica". Curiosamente, nos primeiros anos, Israel tolerou discretamente o crescimento do Hamas, vendo-o como um contrapeso útil à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), então liderada por Yasser Arafat.

Ideologia e Evolução Política

A trajetória do Hamas é marcada por uma ideologia inicialmente inflexível e por uma evolução tática posterior.

A Carta de 1988 e a Rejeição a Oslo

A primeira carta do Hamas, de 1988, era intransigente. Ela se opunha a qualquer reconhecimento de Israel, pregava a criação de um Estado islâmico em toda a Palestina histórica (do rio Jordão ao mar Mediterrâneo) e continha linguagem amplamente considerada antissemita. Por isso, o Hamas rejeitou veementemente os Acordos de Oslo de 1993, que levaram a OLP a reconhecer Israel e a buscar uma solução de dois Estados.

O Documento de 2017 e uma Aparente Moderação

Em 2017, o Hamas lançou um novo "Documento de Princípios Gerais". Este texto removeu a linguagem antissemita, afirmou que sua luta era contra os sionistas e não contra os judeus em geral, e aceitou a ideia de um Estado palestino temporário dentro das fronteiras de 1967 (Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental), embora sem reconhecer formalmente Israel. Analistas debatem se isso representou uma mudança ideológica real ou apenas uma manobra tática.

Ascensão ao Poder: Vitória Eleitoral e Tomada de Gaza

O Hamas surpreendeu o mundo ao entrar no jogo político eleitoral e vencer.

A Vitória nas Eleições de 2006

Em janeiro de 2006, o Hamas participou das eleições legislativas palestinas. Campanhando contra a corrupção do partido dominante Fatah e reafirmando a resistência, o Hamas conquistou uma maioria esmagadora de 74 das 132 cadeiras, em uma eleição considerada limpa por observadores internacionais.

Golpe e Controle de Gaza (2007)

Israel, os EUA e a União Europeia se recusaram a reconhecer o governo do Hamas, impondo um bloqueio econômico. A tensão entre o Hamas e o Fatah (que controlava a Autoridade Palestina) escalou para violentos confrontos. Em junho de 2007, após uma breve guerra civil, as forças do Hamas expulsaram o Fatah da Faixa de Gaza e assumiram o controle total do território.

Este evento criou uma divisão palestina duradoura: o Hamas governa Gaza, enquanto o Fatah administra partes da Cisjordânia. Israel e Egito impuseram um rigoroso bloqueio terrestre, aéreo e marítimo a Gaza, que permanece em vigor, controlando a entrada de pessoas e bens.

Ciclos de Conflito com Israel (2008-2021)

Desde que assumiu o controle de Gaza, o Hamas se envolveu em uma série de guerras e confrontos com Israel, caracterizados por lançamentos de foguetes a partir de Gaza e pesados bombardeios israelenses em retaliação.

Guerra em Gaza (2008-2009): Primeiro grande conflito após a tomada do Hamas. Durou 22 dias.
Operção Pilar Defensivo (2012): Conflito de oito dias.
Guerra em Gaza (2014): O conflito mais longo e destrutivo até então, com 50 dias de duração. Causou grande destruição em Gaza e baixas significativas.
Crise de 2021: Confrontos de 11 dias iniciados por tensões em Jerusalém Oriental.

Cada rodada de violência seguiu um padrão semelhante: alto número de baixas e destruição em Gaza, menor número (mas ainda significativo) de baixas em Israel, e cessar-fogo mediado internacionalmente que não resolvia as questões subjacentes.

O Ataque de 7 de Outubro de 2023 e a Guerra Atual

Em 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque surpresa sem precedentes contra Israel, escalando o conflito para um novo patamar de violência e consequências.

O Ataque do Hamas

Combatentes do Hamas romperam a barreira de segurança de Gaza e invadiram comunidades israelenses próximas, matando cerca de 1.200 pessoas, a maioria civis, e sequestrando aproximadamente 250 reféns para Gaza. O ataque incluiu um massacre em um festival de música e brutalidade extrema, gerando horror internacional.

O Hamas descreveu o ataque como uma resposta à contínua ocupação israelense, ao bloqueio de Gaza, à expansão de assentamentos e a ameaças ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém. Analistas também sugerem que o ataque visava sabotar uma possível normalização de relações entre Israel e a Arábia Saudita.

A Ofensiva Militar Israelense

Israel respondeu declarando guerra com o objetivo declarado de "destruir o Hamas". Lançou uma campanha militar massiva em Gaza, envolvendo intensos bombardeios aéreos seguidos por uma grande ofensiva terrestre.

Consequências Humanitárias Catastróficas

A guerra causou uma catástrofe humanitária em Gaza, sem paralelo nos conflitos anteriores.
Vítimas: Dezenas de milhares de palestinos foram mortos, sendo a grande maioria mulheres e crianças. As autoridades de saúde de Gaza reportaram mais de 44.000 mortos até novembro de 2024.
Destruição: A infraestrutura de Gaza foi arrasada. Israel destruiu ou danificou uma grande porcentagem de todos os edifícios, incluindo hospitais, escolas e universidades.
Deslocamento e Fome: Quase toda a população de Gaza (cerca de 2,3 milhões) foi deslocada à força, muitas vezes múltiplas vezes. O bloqueio e os combates levaram a uma grave crise de fome, descrita como "inteiramente fabricada pelo homem".

Desdobramentos Políticos e Jurídicos

Em outubro de 2025, um acordo de cessar-fogo mediado entrou em vigor, levando à libertação de reféns israelenses restantes e de prisioneiros palestinos. A guerra teve repercussões globais: o Tribunal Penal Internacional emitiu ordens de prisão contra líderes israelenses e do Hamas por alegados crimes de guerra e contra a humanidade. A Corte Internacional de Justiça emitiu opiniões contra os assentamentos israelenses e examina uma acusação de genocídio apresentada pela África do Sul. Vários países, incluindo o Reino Unido, reconheceram formalmente o Estado da Palestina durante o conflito.

Dicas Finais para Compreender o Hamas

1. Entenda suas raízes duplas: O Hamas é tanto um movimento de resistência nacionalista palestino quanto um movimento islâmico. Ignorar qualquer uma dessas dimensões leva a uma compreensão incompleta.

2. Separe retórica de ação prática: Apesar da retórica maximalista de sua carta original, o Hamas mostrou capacidade de negociação e pragmatismo político ao longo dos anos, como evidenciado por suas ofertas de tréguas de longo prazo.

3. Contextualize com a ocupação: O surgimento e a popularidade do Hamas estão intrinsecamente ligados ao contexto da ocupação israelense, à falta de perspectivas de paz e às frustrações palestinas.

4. Reconheça a divisão palestina: O Hamas não representa todos os palestinos. A divisão entre o Hamas em Gaza e o Fatah na Cisjordânia é um obstáculo central para a unidade nacional palestina e para qualquer processo de paz futuro.

5. Avalie fontes com cuidado: O tema é altamente polarizado. Busque informações de uma variedade de fontes (palestinas, israelenses, internacionais) e esteja ciente dos vieses de cada uma.

O Hamas evoluiu de um braço da Irmandade Muçulmana para a força governante em Gaza e um ator central em um dos conflitos mais intratáveis do mundo. Sua história é de militância, pragmatismo ocasional, guerra cíclica e, mais recentemente, de um confronto que redefiniu a escala da violência e do sofrimento no conflito israelense-palestino. Seu futuro e o futuro de Gaza permanecem profundamente incertos, à sombra de uma destruição sem precedentes e de questões políticas não resolvidas.