Raiva
A raiva é uma encefalomielite viral aguda, quase invariavelmente fatal, causada por vírus do gênero Lyssavirus. Transmitida principalmente pela mordida de animais infectados, caracteriza-se por um quadro neurológico dramático com hidrofobia e aerofobia, seguido de coma e óbito. A profilaxia pós-exposição eficaz e oportuna é crucial para prevenir a doença.
Epidemiologia Global
Mortalidade
Óbitos: 59.000/ano mundialmente (estimativa OMS).
Regiões: 95% na Ásia e África.
Subnotificação: Mortalidade real pode ser maior.
Letalidade: Próxima de 100% após início dos sintomas.
Brasil
Casos humanos: 10-40/ano, em queda constante.
Reservatórios:
- Urbana: Cães e gatos (controlada)
- Silvestre: Morcegos (principal), raposas, guaxinins
Estados: Norte e Nordeste concentram mais casos.
Sucesso: Eliminação da raiva canina em muitas áreas.
Agente Etiológico: Lyssavirus
Classificação
- Família: Rhabdoviridae.
- Gênero: Lyssavirus (16 espécies, 7 genótipos).
- Principal: Vírus da raiva (genótipo 1).
- Outros: Vírus Mokola, Duvenhage, Lagos bat, etc.
- Morfologia: Forma de bala/projétil, 180×75nm, envelopado.
- Genoma: RNA fita simples negativa.
Patogênese
- Inoculação: Saliva contaminada em ferida/mucosa.
- Replicação local: Músculo estriado (período de incubação).
- Neurotropismo: Ligação a receptores nicotínicos, neural CAM.
- Transporte retrógrado axonal: Via nervos periféricos até SNC (3-5 mm/h).
- Replicação no SNC: Neurônios do corno anterior, tronco cerebral, sistema límbico.
- Disseminação centrífuga: Para glândulas salivares, pele, outros órgãos.
Transmissão e Reservatórios
Animais Reservatórios
- Mundial: Cães (99% dos casos humanos).
- Américas: Morcegos hematófagos (vampiro) e não hematófagos.
- Europa: Raposas, texugos.
- Ásia/Africa: Cães, chacais, mangustos.
- Outros: Guaxinins, gambás, furões.
Vias de Transmissão
- Mordida: Principal (saliva contaminada).
- Arranhadura/Lambedura: Se houver solução de continuidade.
- Aerossóis: Cavernas com morcegos, laboratório.
- Transplante: Córnea, órgãos sólidos (raríssimo).
- Vertical: Teórica, não bem documentada.
Período de Incubação e Fatores de Risco
Duração
Média: 1-3 meses.
Variação: 5 dias a vários anos (raramente >1 ano).
Fatores que encurtam:
- Mordida profunda/múltipla
- Inervação rica (face, mãos)
- Proximidade do SNC (cabeça, pescoço)
- Crianças (mais curto que adultos)
Fatores que Influenciam
Animal agressor: Espécie, localização da raiva.
Ferida: Gravidade, número, profundidade.
Vírus: Cepa, quantidade inoculada.
Hospedeiro: Idade, estado imune, tratamento prévio.
Importância: Determina urgência da profilaxia.
Formas Clínicas
Fase Prodrômica (2-10 dias)
- Sintomas inespecíficos: Febre, cefaleia, mal-estar, anorexia.
- Sintomas locais: Parestesia, dor, prurido no local da mordida (80%).
- Alterações psicológicas: Ansiedade, irritabilidade, depressão.
Fase Neurológica Aguda
- Raiva furiosa (80%):
- Hidrofobia: Espasmos dolorosos da faringe/laringe ao tentar beber
- Aerofobia: Espasmos com corrente de ar
- Hiperexcitabilidade: A estímulos sensoriais
- Autonomia: Hipersalivação, piloereção, priapismo
- Alteração mental: Agitação, alucinações, comportamento bizarro
- Períodos de lucidez entre crises
- Raiva paralítica (20%):
- Paralisia flácida ascendente (similar a Guillain-Barré)
- Começa no membro mordido, progride simetricamente
- Menos agitação, mais depressão do SNC
- Mais comum em mordidas por morcegos
Fase de Coma e Óbito
- Início: 2-10 dias após fase neurológica.
- Coma: Progressivo para morte cerebral.
- Causa de morte: Parada respiratória, arritmias, hipotensão.
- Duração total: 2-10 dias (raramente >14 dias).
- Sobrevida: Apenas alguns casos com suporte intensivo (Milwaukee protocol).
Diagnóstico
Em Vida (Humano)
Clínico: Suspeita baseada em história de exposição + sintomas neurológicos característicos.
Laboratorial:
- PCR: Saliva, LCR, biópsia de pele nucal (folículos pilosos)
- Imunofluorescência: Biópsia de pele, córnea (raramente feito)
- Isolamento viral: Inoculação em camundongos ou cultivo celular
- Sorologia: Aumento de anticorpos no soro ou LCR (tardia)
Importante: O diagnóstico pré-morte é difícil, muitas vezes retrospectivo.
Pós-Morte
Animal:
- Imunofluorescência direta: Tecido cerebral (padrão-ouro)
- Isolamento viral: Inoculação em camundongos
- PCR: Tecido cerebral
- Teste de negri: Pesquisa de corpúsculos de Negri (30-50% sensibilidade)
Humano: Similar, imuno-histoquímica do tecido cerebral.
Importância: Confirmação para vigilância, manejo de contatos.
Profilaxia Pós-Exposição (PEP)
Avaliação do Risco
- Tipo de contato:
- Contato indireto: Sem PEP
- Contato direto sem ferida: Avaliar
- Arranhadura/ferida superficial: PEP
- Mordida única ou múltipla superficial: PEP
- Mordida única ou múltipla profunda: PEP + soro
- Animal agressor:
- Cão/gato saudável, observação por 10 dias
- Animal raivoso/suspeito/desaparecido: PEP imediata
- Morcegos, animais silvestres: Considerar PEP
Conduta Local da Ferida
- Imediata: Lavagem abundante com água e sabão por 15 minutos.
- Antisséptico: Povidona-iodada ou álcool 70%.
- Sutura: Evitar se possível, ou atrasar 24-48h.
- Antibiótico: Se indicado para infecção bacteriana.
- Soro antitetânico: Se necessário.
Imunoprofilaxia
- Soro antirrábico (SAR):
- Indicação: Ferimentos graves, múltiplos, cabeça/pescoço/mãos
- Dose: 20 UI/kg, infiltração local + resto IM
- Importância: Neutraliza vírus localmente antes da internalização neural
- Momento: Idealmente nas primeiras 24h, até 7º dia
- Vacina:
- Esquema: 4 doses (dias 0, 3, 7, 14) ou 5 doses (dias 0, 3, 7, 14, 28)
- Via: Intramuscular deltoide (adultos) ou vasto lateral (crianças)
- Nunca: Glúteo (menor resposta imune)
- Imunocomprometidos: 5 doses + título pós-vacinal
Vacinas Antirrábicas
Vacinas de Células (HDCV, PCEC)
Produção: Cultivo em células diploides humanas ou embrionárias de frango.
Vantagens: Alta imunogenicidade, baixa reatogenicidade.
Esquema PEP: 4-5 doses.
Esquema pré-exposição: 3 doses (dias 0, 7, 21/28).
Vacinas de Tecido Nervoso (antigas)
Tipos: Fuenzalida-Palacios (cérebro de camundongo), Semple (cérebro de carneiro).
Problemas: Baixa eficácia, reações neurológicas (neuroparalítica).
Atual: Não recomendadas pela OMS, ainda usadas em poucos países.
Indicações de Vacinação Pré-Exposição
- Grupos de risco: Veterinários, biólogos, espeleólogos, viajantes para áreas endêmicas.
- Esquema: 3 doses (0, 7, 21-28 dias).
- Reforço: Títulos a cada 2 anos (risco contínuo) ou booster após exposição.
- Vantagem: Elimina necessidade de SAR, reduz esquema PEP para 2 doses.
Controle Animal
Controle da Raiva Canina
- Vacinação canina: Campanhas anuais de massa (>70% de cobertura).
- Controle populacional: Esterilização, posse responsável.
- Vigilância: Investigação de animais mordedores, diagnóstico laboratorial.
- Educação: População sobre prevenção de mordidas, cuidados com animais.
Controle da Raiva Silvestre
- Vacinação oral: Iscas com vacina para raposas, guaxinins.
- Controle de morcegos: Dificultar abrigos em edificações, repelentes.
- Proteção de animais domésticos: Vacinação de bovinos, equinos em áreas endêmicas.
- Vigilância ativa: Monitoramento de morcegos encontrados mortos/doentes.
Casos Especiais
Mordidas por Morcegos
- Risco: Mordidas podem passar despercebidas (dentes pequenos).
- Indicação de PEP: Contato direto (mordida, arranhadão) ou pessoa dormindo/acordando com morcego no quarto.
- Captura: Se possível, para diagnóstico (sem risco pessoal excessivo).
- Educação: Não manipular morcegos, especialmente caídos/doentes.
Gestantes e Crianças
- Gestantes: PEP indicada se necessário, vacina não é contraindicada.
- Crianças: Maior risco (altura, curiosidade), PEP conforme indicação.
- Lactantes: Não contraindica PEP na mãe ou criança.
Pacientes Previamente Vacinados
- Pré-exposição completa: 2 doses de vacina (dias 0 e 3), sem SAR.
- PEP anterior completa: Considerar como pré-exposição.
- Incompleta/há muito tempo: Esquema PEP completo.
Questões para Estudo e Reflexão
Perguntas para Fixação
- Descreva a patogênese da raiva desde a inoculação do vírus até o desenvolvimento dos sintomas neurológicos.
- Compare as formas furiosa e paralítica da raiva quanto às manifestações clínicas e prognóstico.
- Quais são as indicações para uso de soro antirrábico e vacina na profilaxia pós-exposição?
- Explique o manejo adequado de uma ferida por mordida animal para prevenção da raiva.
- Quais estratégias são eficazes para o controle da raiva urbana e silvestre?
Caso Clínico para Análise
Paciente: Homem, 42 anos, procura PS 2 dias após ser mordido por cão de rua.
História: Mordida na mão direita durante tentativa de alimentar cão errante. Ferida superficial, lavou com água apenas.
Animal: Cão de médio porte, desapareceu após mordida.
Exame físico: Duas marcas de dentes na região tenar direita, sem sinais de infecção.
Discuta:
- Qual a conduta em relação ao manejo da ferida?
- Está indicada profilaxia pós-exposição? Qual esquema?
- Há indicação de soro antirrábico?
- Que orientações devem ser dadas ao paciente?
Protocolo de Atendimento
Cenário: Serviço de saúde que atende múltiplos casos de mordidas animais.
Elabore um fluxograma de decisão para PEP contendo:
- Avaliação do tipo de contato/ferida
- Informações sobre o animal agressor
- Indicações de soro e vacina
- Esquemas para diferentes situações (pré-vacinados, crianças, etc.)
- Orientações de seguimento
Discussão sobre Estratégias de Controle
Tema: "Vacinação oral de animais silvestres vs. controle populacional: estratégias complementares para eliminação da raiva"
Analise:
- Eficácia das iscas vacinais em diferentes espécies
- Custo-benefício dos programas de controle
- Impacto ambiental das diferentes estratégias
- Sustentabilidade a longo prazo
- Participação comunitária necessária
Proponha: Um plano integrado para uma região com raiva silvestre.