Poliomielite
A poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, é uma doença viral aguda causada pelo poliovírus, que pode levar a paralisia flácida aguda e sequelas motoras permanentes. Graças às campanhas de vacinação em massa, está próxima da erradicação global, representando um dos maiores sucessos da saúde pública mundial.
Epidemiologia e História
Era Pré-Vacinal
Pandemia: Epidemias anuais no verão/outono em países temperados.
Afetados: Principalmente crianças, mas também adultos.
Casos: EUA: 21.000 casos de paralisia/ano no pico (1952).
Impacto: Medo generalizado, fechamento de piscinas, cinemas.
Era Pós-Vacinal
1955: Vacina Salk (injetável, inativada).
1961: Vacina Sabin (oral, atenuada).
1994: Américas certificadas livres da pólio.
2020: África certificada livre da pólio selvagem.
Atual: Apenas 2 países endêmicos (Afeganistão, Paquistão).
Agente Etiológico: Poliovírus
Classificação
- Família: Picornaviridae.
- Gênero: Enterovirus.
- Tipos: 1, 2 e 3 (tipo 1 mais frequente em paralisia).
- Genoma: RNA simples fita positiva, não envelopado.
- Resistência: Estável no ambiente, sobrevive no esgoto.
Patogênese
- Porta de entrada: Trato gastrointestinal (ingestão).
- Replicação inicial: Tonsilas, placas de Peyer, linfonodos mesentéricos.
- Viremia primária: Disseminação para sistema reticuloendotelial.
- Viremia secundária: Para SNC em <1% dos infectados.
- Neuronotropismo: Neurônios motores do corno anterior da medula, tronco cerebral.
Transmissão
Vias de Transmissão
- Fecal-oral: Principal via, água e alimentos contaminados.
- Oral-oral: Gotículas respiratórias, saliva.
- Período de transmissão: 7-10 dias antes até 6 semanas após início dos sintomas.
- Maior transmissibilidade: Primeira semana da doença.
Fatores Epidemiológicos
- Sazonalidade: Verão/outono em climas temperados.
- Idade: Crianças mais suscetíveis, mas adultos têm maior risco de paralisia.
- Higiênico-sanitário: Más condições favorecem transmissão.
- Imunidade: A infecção confere imunidade tipo-específica permanente.
Formas Clínicas
Infecção Assintomática (90-95%)
Características: Sem sintomas, eliminam vírus nas fezes.
Importância: Mantém transmissão na comunidade.
Doença Abortiva (4-8%)
Sintomas: Febre, mal-estar, cefaleia, dor de garganta, vômitos.
Duração: 1-3 dias, recuperação completa.
Diagnóstico: Raramente feito, confundido com outras viroses.
Meningite Asséptica Não Paralisante (1-2%)
- Sintomas meningeos: Rigidez de nuca, cefaleia intensa, fotofobia.
- LCR: Pleocitose linfocítica, proteína normal/aumentada, glicose normal.
- Recuperação: Completa em 5-10 dias.
Forma Paralítica (0.1-1%)
- Fase prodrômica: Similar à abortiva (1-3 dias).
- Fase preparalítica: Período livre de sintomas (1-7 dias).
- Fase paralítica: Retorno da febre, dor muscular, paralisia flácida aguda.
- Características da paralisia:
- Assimétrica, proximal > distal
- Flácida, arreflexia, atrofia posterior
- Sem alteração sensitiva
- Progressão por 2-3 dias, estabiliza
Formas de Paralisia
- Espinal (79%): Membros, tronco, músculos intercostais/diafragma.
- Bulbar (2%): Nervos cranianos, deglutição, fonação, respiração.
- Bulboespinal (19%): Combinação, mais grave.
- Encefalítica: Rara, alteração de consciência, convulsões.
Diagnóstico
Clínico e Epidemiológico
- Suspeita: Paralisia flácida aguda em criança.
- Definição de caso: Paralisia flácida aguda com resolução incompleta após 60 dias.
- Notificação: Imediata e compulsória.
Laboratorial
- Isolamento viral: Fezes (2 amostras com 24h intervalo), swab retal, secreção orofaríngea.
- PCR: Identificação e diferenciação de tipos.
- Sorologia: Pares de soros (aguda/convalescente), aumento de 4x nos títulos.
- LCR: Pleocitose linfocítica, aumento discreto de proteínas.
Diferencial
- Outros enterovírus: EV-71, coxsackievírus.
- Síndrome de Guillain-Barré: Paralisia ascendente simétrica.
- Mielite transversa: Nível sensitivo, disfunção esfincteriana.
- Trauma/compressão medular: História, imagem.
Tratamento e Reabilitação
Tratamento Agudo
Suporte: Hospitalização, monitorização respiratória.
Respiratório: Ventilação mecânica se necessário (bulbar/grave).
Analgesia: Para mialgia e dor.
Posicionamento: Prevenir contraturas, úlceras de pressão.
Isolamento: Precauções entéricas e de contato.
Reabilitação
Fisioterapia: Manter amplitude articular, fortalecer músculos preservados.
Órteses: Para estabilizar articulações, melhorar função.
Cirurgias ortopédicas: Alongamentos, transferências tendíneas, artrodese.
Acompanhamento: Multidisciplinar por anos.
Vacinação
Vacina Oral (Sabin - OPV)
Composição: Vírus vivos atenuados dos 3 tipos.
Administração: Gotas por via oral.
Vantagens:
- Imunidade intestinal (bloqueia replicação)
- Imunidade de rebanho (excreção de vírus vacinal)
- Facilidade de administração
- Baixo custo
Desvantagens:
- Poliomielite associada à vacina (VAPP)
- Vírus vacinal derivado circulante (cVDPV)
- Contraindicada em imunodeficientes
Vacina Inativada (Salk - IPV)
Composição: Vírus inativados dos 3 tipos.
Administração: Intramuscular.
Vantagens:
- Sem risco de VAPP ou cVDPV
- Segura em imunodeficientes
- Boa imunidade sistêmica
Desvantagens:
- Sem imunidade intestinal completa
- Não produz imunidade de rebanho intestinal
- Mais cara, requer profissional treinado
Esquemas Vacinais
- Brasil (atual): 3 doses de IPV (2, 4, 6 meses) + 2 reforços (15 meses, 4 anos).
- OPV sequencial: Países endêmicos: 1 dose IPV + múltiplas OPV.
- Campanhas: Dias Nacionais de Vacinação para alcançar altas coberturas.
Erradicação Global
Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI)
- Lançada: 1988 pela OMS, Rotary International, UNICEF, CDC.
- Metas: Interrupção da transmissão do poliovírus selvagem.
- Progresso: Redução de 99.9% nos casos desde 1988.
- Certificação: Regiões OMS certificadas livres: Américas (1994), Pacífico Ocidental (2000), Europa (2002), Sudeste Asiático (2014), África (2020).
Desafios Atuais
- Países endêmicos: Afeganistão, Paquistão (acesso, conflitos).
- cVDPV: Vírus derivado de vacina que readquire neurovirulência.
- Vigilância: Manter sistemas sensíveis em baixa incidência.
- Financiamento: Sustentabilidade dos programas.
- Pós-erradicação: Contenção de estoques, vacinação futura.
Síndrome Pós-Pólio
Características
- Definição: Conjunto de sinais e sintomas que aparecem décadas após a infecção aguda.
- Prevalência: 25-40% dos sobreviventes da pólio paralítica.
- Tempo: Geralmente 30-40 anos após a doença aguda.
Manifestações
- Fadiga: Debilitante, piora ao final do dia.
- Dor: Muscular, articular (por sobrecarga).
- Fraqueza: Novos grupos musculares ou progressão em músculos afetados.
- Atrofia: Progressiva.
- Intolerância ao frio: Fenômeno de Raynaud-like.
- Distúrbios do sono, respiração, deglutição.
Mecanismo
- Envelhecimento: Dos neurônios motores sobrecarregados.
- Desnervação progressiva: Perda das unidades motoras que se reorganizaram.
- Tratamento: Sintomático, conservação de energia, adaptações.
Questões para Estudo e Reflexão
Perguntas para Fixação
- Descreva a patogênese da poliomielite desde a infecção até o comprometimento do sistema nervoso.
- Compare as vantagens e desvantagens das vacinas OPV e IPV.
- Quais são os principais desafios para a erradicação global da pólio atualmente?
- Explique as diferenças clínicas entre a forma espinal e bulbar da poliomielite paralítica.
- O que é a síndrome pós-pólio e quais são suas manifestações principais?
Caso Clínico para Análise
Paciente: Criança, 3 anos, sem vacinação completa.
História: Febre, vômitos, dor de garganta há 3 dias. Hoje, pais notam que a criança não consegue levantar o braço direito e apresenta dificuldade para engolir saliva.
Exame físico: Febre 38.5°C, faringe hiperemiada. Paralisia flácida do membro superior direito, arreflexia. Tosse fraca, voz anasalada.
Discuta:
- Qual a suspeita diagnóstica e sua confirmação?
- Qual a conduta imediata (isolamento, notificação, tratamento)?
- Que investigações de contatos devem ser feitas?
- Como prevenir novos casos na comunidade?
Análise de Vigilância
Cenário: Município recebe notificação de caso de paralisia flácida aguda.
Descreva as etapas da investigação:
- Confirmação do caso (critérios, exames)
- Investigación epidemiológica (fonte, contatos)
- Coleta e envio de amostras
- Medidas de controle (vacinação, bloqueio)
- Comunicação de risco
Debate sobre Estratégias Vacinais
Tema: "Transição global de OPV para IPV: equilíbrio entre segurança e eficácia na fase final da erradicação"
Argumentos:
- Manter OPV: Imunidade intestinal, custo, logística em áreas de difícil acesso
- Transição para IPV: Eliminar VAPP e cVDPV, segurança em imunodeficientes
Recomende: Uma estratégia baseada em evidências para diferentes contextos.