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Catapora

A catapora, também conhecida como varicela, é uma doença infecciosa viral altamente contagiosa causada pelo vírus Varicela-Zoster (VZV), membro da família Herpesviridae. Caracterizada por um exantema vesicular pruriginoso típico, febre e mal-estar, é predominantemente uma doença da infância, com mais de 90% dos casos ocorrendo antes dos 10 anos de idade em países sem vacinação universal. Embora geralmente seja uma doença benigna e autolimitada na infância, pode apresentar complicações graves, especialmente em adultos, neonatos e indivíduos imunocomprometidos. Após a infecção primária, o VZV estabelece latência nos gânglios sensoriais e pode reativar décadas depois, causando herpes zoster (cobreiro). A vacinação, disponível desde 1995, tem transformado significativamente a epidemiologia desta doença, reduzindo drasticamente a incidência, hospitalizações e mortes relacionadas.

Lesões vesiculares da catapora
Lesões vesiculares características da catapora em diferentes estágios de evolução.

Epidemiologia e História Natural

Distribuição Global

Antes da implementação da vacinação, a varicela era uma doença endêmica em todo o mundo, com padrões epidemiológicos distintos entre climas temperados e tropicais. Em regiões temperadas, apresentava forte sazonalidade, com picos no final do inverno e início da primavera, e mais de 90% das pessoas eram infectadas até a adolescência. Nos trópicos, a doença ocorria em idade mais tardia, com até 50% dos adultos ainda suscetíveis, provavelmente devido à interferência de outros vírus, condições climáticas e menor transmissibilidade.

No Brasil pré-vacinal, estimava-se que ocorressem aproximadamente 3 a 4 milhões de casos anuais, com cerca de 100 a 150 mortes por ano, principalmente em adultos e crianças com condições de risco. A vacina contra varicela foi incorporada ao Programa Nacional de Imunização em 2013, inicialmente para grupos específicos, e posteriormente ampliada, resultando em declínio acentuado na incidência.

Atualmente, países com programas robustos de vacinação, como Estados Unidos, Alemanha e Austrália, observaram reduções superiores a 90% na incidência, hospitalizações e mortalidade. Contudo, desafios permanecem, incluindo surtos em populações parcialmente vacinadas, necessidade de duas doses para alta eficácia, e o impacto da vacinação na epidemiologia do herpes zoster.

Transmissão e Períodos Críticos

O VZV é transmitido principalmente por via aérea, através de gotículas respiratórias ou aerossóis das secreções respiratórias, e por contato direto com o líquido das vesículas. A contagiosidade é excepcionalmente alta, com taxa de ataque secundário em domicílios suscetíveis de 85-90%. O período de transmissibilidade inicia-se 1 a 2 dias antes do aparecimento do exantema (período prodrômico) e persiste até que todas as lesões tenham formado crostas, geralmente 5 a 7 dias após o início das lesões.

Pacientes com herpes zoster (reativação) podem transmitir o VZV para indivíduos suscetíveis através do contato direto com as lesões vesiculares, causando varicela primária. A transmissão por fômites é teoricamente possível, mas menos importante. Fatores que aumentam o risco de transmissão incluem aglomerações (escolas, creches), baixa umidade relativa do ar e inverno/primavera em climas temperados.

Indivíduos imunocomprometidos com varicela podem ser contagiosos por períodos mais prolongados, até que todas as lesões tenham completamente cicatrizado. Recém-nascidos cujas mães desenvolvem varicela 5 dias antes a 2 dias após o parto estão em risco elevado de doença grave devido à ausência de transferência de anticorpos maternos e imaturidade imunológica.

Agente Etiológico: Vírus Varicela-Zoster (VZV)

Classificação e Estrutura

O vírus Varicela-Zoster pertence à família Herpesviridae, subfamília Alphaherpesvirinae, gênero Varicellovirus. É um vírus envelopado com capsídeo icosaédrico contendo DNA de fita dupla linear de aproximadamente 125.000 pares de bases, codificando cerca de 70 genes. O envelope viral contém glicoproteínas essenciais para a entrada celular, incluindo gB, gE, gH e gI, sendo gE o principal antígeno alvo da resposta imune humoral.

O VZV apresenta alta estabilidade genética, com apenas um sorotipo conhecido, embora análises genômicas tenham identificado cinco clados (1-5) e duas genótipos provisórios (VI e VII), com distribuição geográfica distinta. Esta estabilidade é uma vantagem para o desenvolvimento vacinal, pois uma única cepa vacinal (cepa Oka) é eficaz em todo o mundo.

Patogênese

A patogênese da varicela envolve etapas sequenciais bem caracterizadas:

  1. Inoculação e Replicação Inicial: O vírus invade através da mucosa do trato respiratório superior ou da conjuntiva, replicando-se nas células epiteliais locais e nos linfonodos regionais.
  2. Viremia Primária: Após 4-6 dias, ocorre disseminação hematogênica para o fígado, baço e outros órgãos do sistema reticuloendotelial.
  3. Viremia Secundária: Entre 10 e 21 dias pós-exposição, há ampla disseminação do vírus através de linfócitos T infectados para a pele e outros órgãos, coincidindo com o período prodrômico.
  4. Exantema e Lesões Cutâneas: O vírus infecta células endoteliais dos capilares dérmicos e células epiteliais, causando degeneração balonizante e formação das vesículas características.
  5. Estabelecimento da Latência: Durante a viremia, o VZV atinge os gânglios sensoriais dorsais e gânglios cranianos, onde estabelece infecção latente nos neurônios. O vírus persiste como DNA episomal sem produção de partículas virais, mas com expressão limitada de genes de latência.
  6. Reativação: Anos ou décadas depois, em condições de imunossenescência ou imunossupressão, o vírus pode reativar, replicar e viajar pelos axônios sensoriais até a pele, causando o herpes zoster.

Resposta Imune

A resposta imune à infecção pelo VZV é complexa e envolve múltiplos componentes:

  • Imunidade Inata: Resposta inicial com produção de interferon tipo I, ativação de células NK e resposta inflamatória.
  • Imunidade Celular: Crucial para controle da infecção. Linfócitos T CD4+ e CD8+ específicos para VZV aparecem durante a fase prodrômica, atingindo pico 1-2 semanas após o exantema. A imunidade celular é essencial para limitar a replicação viral e prevenir doença disseminada.
  • Imunidade Humoral: Anticorpos IgM aparecem 2-5 dias após o exantema, seguidos por IgG que persiste por toda vida. Anticorpos neutralizantes dirigidos contra glicoproteínas do envelope (especialmente gE) previnem reinfecção, mas não previnem reativação (zoster).
  • Imunidade de Rebanho: A vacinação em larga escala reduz a circulação do vírus selvagem, protegendo indiretamente indivíduos não vacinados ou com resposta vacinal subótima.

Deficiências na imunidade celular (leucemias, transplantes, HIV avançado) predispõem a doença grave e disseminada, enquanto deficiências humorais isoladas geralmente não resultam em varicela grave, destacando o papel preponderante da imunidade celular.

Manifestações Clínicas

Período de Incubação e Pródromos

O período de incubação da varicela é tipicamente de 14 a 16 dias, com variação de 10 a 21 dias. Em crianças, o exantema é frequentemente o primeiro sinal, enquanto adultos e algumas crianças podem apresentar um pródromo de 1 a 2 dias com febre baixa a moderada (38-39°C), mal-estar, cefaleia, anorexia e dor abdominal leve. Este pródromo pode simular uma infecção respiratória superior inespecífica, dificultando o diagnóstico precoce.

Em imunocomprometidos, o período prodrômico pode ser mais prolongado e severo, com febre alta, toxemia e sintomas constitucionais pronunciados. A presença de pródromo prolongado ou intenso em uma criança deve levantar suspeita de complicações iminentes ou diagnóstico alternativo.

Exantema Característico

O exantema da varicela evolui através de estágios clássicos que permitem o diagnóstico clínico:

  1. Máculas: Lesões inicialmente planas, vermelhas, de 2-4 mm, que aparecem primeiro na face, couro cabeludo ou tronco.
  2. Pápulas: Dentro de horas, as máculas tornam-se elevadas e firmes.
  3. Vesículas: As pápulas desenvolvem uma vesícula superficial contendo líquido claro ("gota de orvalho sobre base eritematosa"), altamente característica. As vesículas são frágeis e rompem facilmente.
  4. Pústulas: Em 24-48 horas, o líquido torna-se turvo, formando pústulas.
  5. Crostas: Finalmente, as lesões formam crostas que gradualmente caem em 1-2 semanas, geralmente sem cicatriz, a menos que haja infecção bacteriana secundária ou manipulação.

Características importantes incluem: surgimento em surtos sucessivos (2-4 dias), resultando no polimorfismo lesional (lesões em diferentes estágios simultaneamente); distribuição centrípeta (maior concentração no tronco que nas extremidades); e envolvimento de mucosas (oral, conjuntival, genital) em 20-40% dos casos. O prurido é intenso e praticamente universal, sendo uma das principais causas de desconforto.

Formas Clínicas Atípicas e Modificadas

  • Varicela Modificada (Breakthrough Varicella): Ocorre em vacinados parcialmente protegidos. Caracteriza-se por menos de 50 lesões, muitas vezes maculopapulares sem evolução vesicular, doença mais branda, e menor transmissibilidade. A incidência aumentou com programas de vacinação de dose única, reduzindo-se com a segunda dose.
  • Varicela em Adultos: Geralmente mais grave, com maior número de lesões, febre mais alta e prolongada, e risco aumentado de complicações, especialmente pneumonia. A mortalidade em adultos é 25 vezes maior que em crianças.
  • Varicela em Imunocomprometidos: Doença progressiva com lesões hemorrágicas, necróticas ou bolhosas; envolvimento visceral (pulmões, fígado, SNC); viremia prolongada; e alta mortalidade sem tratamento antiviral precoce.
  • Varicela Congênita: Resulta da infecção materna durante a gestação. O risco e padrão de anomalias dependem da idade gestacional:
    • 1º trimestre: Síndrome da varicela congênita (2%) com cicatrizes cutâneas, hipoplasia de membros, microcefalia, catarata, retardo mental
    • 2º trimestre: Herpes zoster na infância (sem anomalias estruturais)
    • Periparto: Varicela neonatal grave com mortalidade até 30% se mãe desenvolve varicela 5 dias antes a 2 dias após parto

Complicações

Complicações Comuns

  • Infecções Bacterianas Secundárias: A complicação mais frequente (5-10% dos casos), principalmente por Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes. Incluem impetigo, celulite, abscessos, e raramente fascite necrotizante ou síndrome do choque tóxico estreptocócico.
  • Desidratação: Devido à febre, anorexia e dificuldade para deglutir por lesões orais dolorosas.
  • Encefalite/Cerebelite: Ocorre em 1-2:10.000 casos, geralmente 2-6 dias após o exantema. A cerebelite aguda (ataxia cerebelar) é a manifestação neurológica mais comum, com excelente prognóstico. Encefalite difusa é mais rara e grave.
  • Pneumonia Varicelosa: Rara em crianças saudáveis (<1%), mas ocorre em 15-20% dos adultos com varicela. Manifesta-se por tosse, dispneia, taquipneia, hipoxemia 1-6 dias após o exantema. Radiografia mostra infiltrados nodulares difusos.

Complicações Graves

  • Síndrome de Reye: Associação rara mas grave com uso de aspirina durante a varicela, caracterizada por encefalopatia e degeneração gordurosa do fígado. Desde a contraindicação do uso de salicilatos em crianças com doenças virais, sua incidência diminuiu drasticamente.
  • Púrpura Trombocitopênica: Trombocitopenia imune secundária, geralmente autolimitada, mas pode causar sangramento significativo.
  • Nefrite: Glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica ou nefrite por imunocomplexos.
  • Artrite/Artralgia: Inflamação articular transitória.
  • Hepatite: Geralmente assintomática e detectada apenas por elevação de transaminases, mas pode ser grave em imunocomprometidos.
  • Miocardite/Pericardite: Rara, mas descrita.

Complicações em Grupos Especiais

  • Gestantes: Maior risco de pneumonia grave (10-20%), com mortalidade materna de 3-14% sem tratamento. Risco aumentado de parto prematuro.
  • Neonatos: Varicela neonatal com disseminação visceral, coagulopatia, pneumonia e mortalidade de 20-30% se a mãe desenvolve varicela 5 dias antes a 2 dias após o parto.
  • Imunocomprometidos: Doença progressiva com lesões hemorrágicas/necróticas, pneumonia, hepatite, encefalite, coagulopatia intravascular disseminada. Mortalidade histórica de 7-14%, reduzida com antivirais.

Diagnóstico

Diagnóstico Clínico

O diagnóstico da varicela é primariamente clínico, baseado na história de exposição e nas características do exantema: início súbito de lesões vesiculares pruriginosas em diferentes estágios de evolução, com distribuição centrípeta e frequentemente envolvimento de mucosas. A presença de casos secundários em contatos domiciliares reforça o diagnóstico. Em casos atípicos (adultos sem história clara, imunocomprometidos, vacinados com doença modificada), confirmação laboratorial é essencial.

O diagnóstico diferencial inclui: herpes zoster disseminado (lesões em dermatomo mas podem se disseminar), herpes simplex disseminado (especialmente em eczema), enteroviroses (coxackie, especialmente doença mão-pé-boca), impetigo bolhoso, dermatite de contato, picadas de insetos, e reações medicamentosas. A distribuição, morfologia e história epidemiológica geralmente permitem distinção.

Diagnóstico Laboratorial

Métodos laboratoriais são indicados para casos atípicos, graves, em gestantes, imunocomprometidos, surtos investigacionais ou para fins de vigilância:

  • PCR: Método de escolha para detecção de DNA do VZV em fluido vesicular, crostas, LCR, sangue ou tecidos. Alta sensibilidade e especificidade, resultado rápido (horas).
  • Imunofluorescência Direta: Detecta antígenos virais em esfregaços de base de vesícula, com sensibilidade de 70-90% se amostra adequada.
  • Isolamento Viral: Cultivo em células diploides humanas, demorado (3-7 dias), baixa sensibilidade, reservado para pesquisa.
  • Sorologia: Detecção de IgM específica (infecção aguda) ou IgG (imunidade). IgM aparece 2-5 dias após exantema, persiste 4-8 semanas. IgG persiste por vida. Métodos: ELISA, imunofluorescência indireta, teste de neutralização.
  • Teste Tzanck: Esfregaço de base de vesícula corado com Giemsa ou Wright mostra células gigantes multinucleadas, mas não diferencia VZV de HSV.

Tratamento

Medidas de Suporte

  • Controle do Prurido: Anti-histamínicos orais (hidroxizina, difenidramina), banhos com água morna e bicarbonato de sódio ou aveia coloidal, loções calmantes (calamina). Manter unhas cortadas para prevenir infecção bacteriana secundária por coçadura.
  • Controle da Febre: Paracetamol ou ibuprofeno. Evitar aspirina devido ao risco de síndrome de Reye.
  • Hidratação: Oferecer líquidos frequentemente, especialmente se lesões orais dolorosas.
  • Higiene: Banhos diários suaves, roupas limpas e soltas, isolamento até que todas as lesões tenham formado crostas.

Antivirais Específicos

O aciclovir e seus análogos (valaciclovir, famciclovir) são nucleosídeos análogos que inibem a replicação do VZV através da inibição da DNA polimerase viral:

  • Indicações:
    • Adultos e adolescentes (>12 anos) dentro de 24h do início do exantema
    • Crianças com condições crônicas (pulmonares, cutâneas)
    • Indivíduos em corticosteroides crônicos ou inalatórios
    • Segundo caso familiar (geralmente mais grave)
    • Todos os imunocomprometidos
    • Gestantes (especialmente no 2º e 3º trimestres)
    • Neonatos com varicela
  • Doses:
    • Aciclovir oral: 20 mg/kg/dose (máx 800 mg) 4x/dia por 5 dias
    • Valaciclovir: 20 mg/kg/dose (máx 1g) 3x/dia por 5 dias (para >2 anos)
    • Aciclovir IV: 10 mg/kg/dose 8/8h para doença grave ou imunocomprometidos
  • Eficácia: Redução da duração da febre e número de lesões se iniciado precocemente; em imunocomprometidos reduz gravidade e mortalidade.

Imunoglobulinas

  • Imunoglobulina Varicela-Zoster (VZIG): Derivada de doadores com altos títulos de anticorpos anti-VZV.
  • Indicações: Suscetíveis expostos de alto risco:
    • Imunocomprometidos sem evidência de imunidade
    • Recém-nascidos de mães com início de varicela 5 dias antes a 2 dias após parto
    • Prematuros <28 semanas ou <1000g expostos, independente do status materno
    • Gestantes suscetíveis expostas
  • Administração: Idealmente dentro de 96h (até 10 dias) pós-exposição, IM.
  • Efeito: Modifica ou previne doença, não a cura. Pode prolongar período de incubação.

Prevenção: Vacinação

Vacinas Disponíveis

A vacina contra varicela é preparada com o vírus VZV vivo atenuado, cepa Oka/Merck, desenvolvida no Japão na década de 1970. As formulações incluem:

  • Monovalente: Vacina varicela (Varivax®, Okavax®)
  • Combinada: Vacina tetravalente (sarampo, caxumba, rubéola, varicela - MMRV, Priorix-Tetra®, ProQuad®)

A vacina é altamente imunogênica: uma dose induz soroconversão em ~85% das crianças e ~70% dos adolescentes/adultos; duas doses aumentam a soroconversão para >99% em todas as idades. A eficácia contra doença moderada/grave é de 85-95% após uma dose e 98% após duas doses. A imunidade é duradoura, mas pode diminuir com o tempo, justificando o esquema de duas doses.

Esquemas Vacinais

Brasil (PNI):

  • 1ª dose: 15 meses (vacina tetravalente - SCRV)
  • 2ª dose: 4 anos (tetravalente ou varicela monovalente)
  • Catch-up: Para crianças, adolescentes e adultos até 49 anos sem comprovação de doença ou vacinação

Estados Unidos (ACIP):

  • 1ª dose: 12-15 meses
  • 2ª dose: 4-6 anos (mínimo intervalo 3 meses)
  • Adolescentes e adultos sem imunidade: 2 doses com intervalo de 4-8 semanas

Contraindicações: Imunodeficiências graves, gravidez (evitar por 1 mês pós-vacina), alergia grave a componentes, uso recente de sangue/hemoderivados (adiar 3-11 meses). Uso de corticosteroides em dose imunossupressora (≥2 mg/kg/dia de prednisona ou equivalente por ≥2 semanas).

Efeitos Adversos e Considerações

  • Comuns: Dor/vermelhidão no local (20%), febre baixa (10-15%), exantema leve (3-5%, geralmente <10 lesões) 5-26 dias pós-vacina.
  • Raros: Exantema generalizado similar à varicela, herpes zoster (taxa menor que após doença natural), púrpura trombocitopênica, ataxia cerebelar transitória.
  • Transmissão: Raríssima (<1:10 milhões de doses) do vírus vacinal de vacinados com exantema para contatos suscetíveis de alto risco.
  • Impacto Epidemiológico: A vacinação em massa reduz incidência, hospitalizações, mortalidade e custos com saúde. Pode alterar a epidemiologia do herpes zoster a longo prazo (ainda em estudo).

Herpes Zoster (Cobreiro)

Relação com Varicela

O herpes zoster resulta da reativação do VZV latente nos gânglios sensoriais, tipicamente décadas após a varicela primária. A incidência aumenta com a idade e a imunossenescência, com risco vitalício de 20-30% na população geral. O zoster apresenta-se como erupção vesicular dolorosa limitada a um dermatomo, frequentemente torácico (50%) ou trigeminal (10-20%), precedida por 1-5 dias de dor, parestesia ou prurido no local.

Complicações incluem neuralgia pós-herpética (dor crônica >90 dias após erupção, mais comum em idosos), envolvimento ocular (zoster oftálmico com risco de ceratite, uveíte, glaucoma), síndrome de Ramsay Hunt (zoster auricular com paralisia facial), meningoencefalite, e disseminação cutânea ou visceral em imunocomprometidos.

Vacinação contra Herpes Zoster

  • Vacina Zoster Live (ZVL): Vírus atenuado com dose maior que varicela, para ≥50 anos. Reduz risco de zoster em 51% e neuralgia pós-herpética em 67%.
  • Vacina Zoster Recombinante (RZV - Shingrix®): Vacina subunitária com adjuvante AS01B, 2 doses com intervalo de 2-6 meses, para ≥50 anos (ou ≥18 imunocomprometidos). Eficácia >90% em todos os grupos etários, inclusive em idosos. Preferida atualmente.
  • Indicações: Todos ≥50 anos, independente de história de varicela ou zoster prévio, e adultos ≥18 anos com condições que aumentam risco (imunossupressão).

Questões para Estudo e Reflexão

Perguntas para Fixação

  1. Descreva as etapas da patogênese da varicela, desde a infecção inicial até o estabelecimento da latência e possibilidade de reativação como herpes zoster.
  2. Compare as manifestações clínicas, gravidade e risco de complicações da varicela em crianças saudáveis versus adultos versus imunocomprometidos.
  3. Explique o esquema de vacinação contra varicela no Brasil, incluindo indicações, contraindicações e eficácia esperada.
  4. Quais são as principais complicações da varicela e como podem ser prevenidas ou manejadas?
  5. Discuta a relação epidemiológica entre programas de vacinação contra varicela e a incidência de herpes zoster na população.

Caso Clínico para Análise

Paciente: Mulher, 28 anos, gestante de 24 semanas, professora primária.

História: Exposição a aluno com varicela há 10 dias. Nunca teve varicela, status vacinal desconhecido. Ontem iniciou febre 38.5°C, mal-estar, hoje apareceram lesões vesiculares no tronco.

Exame: Múltiplas vesículas em diferentes estágios no tronco, face e couro cabeludo, algumas na mucosa oral. Ausculta pulmonar normal.

Exames: PCR de lesão: VZV positivo. Ultrassom fetal normal.

Discuta:

  1. Qual o risco para a gestante e para o feto?
  2. Qual a conduta terapêutica imediata?
  3. Que monitorização é necessária para detectar complicações precoces?
  4. Como manejar o recém-nascido após o parto?
  5. Quais medidas de prevenção deveriam ter sido tomadas antes da exposição?

Análise de Surtos em Ambiente Escolar

Cenário: Creche com 50 crianças, 4 casos de varicela confirmados em uma semana, cobertura vacinal estimada em 70%.

Elabore um plano de ação contendo:

  1. Medidas de controle de infecção imediatas
  2. Estratégias de comunicação com pais e funcionários
  3. Critérios para exclusão escolar e retorno
  4. Indicações para profilaxia pós-exposição (vacina, VZIG)
  5. Monitoramento e encerramento do surto

Debate sobre Política de Vacinação

Tema: "Vacinação universal contra varicela: benefício individual vs. possível aumento de herpes zoster na população"

Hipótese: A redução da circulação do vírus selvagem (efeito booster natural) poderia aumentar a incidência de zoster em adultos não vacinados.

Analise:

  • Evidências epidemiológicas de países com programas de vacinação prolongados
  • Mecanismos imunológicos envolvidos
  • Impacto das vacinas contra zoster (RZV) nesta equação
  • Relação custo-benefício da vacinação universal

Conclua: Se a política de vacinação universal deve ser mantida, modificada ou complementada com outras estratégias.